segunda-feira, 7 de março de 2011

Propaganda pode levar à morte?

Assunto polêmico este, que ganha profundidade no filme “Obrigada por fumar”. Sob a perspectiva de um legitimo lobista, Nick Naylor, representando os interesses de uma sociedade a fim de influenciar milhares de pessoas a consumirem o tabaco, a sinopse trata o poder de comunicação como uma arma.

Na munição argumentos, ao invés de negociação. Assim, persuasivo Naylor, consegue vencer incansáveis debates, numa constante batalha contra os antitabagistas. Numa delas, diante de um adolescente, uma vítima jovem do letal cigarro, consegue mudar a ideia de milhões de espectadores sobre um mesmo assunto. A saída? Argumentos mais uma vez. O artifício utilizado para persuadir estava na constituição. Propondo a liberdade de escolhas, o livre arbítrio de decidir por aquilo que se quer consumir ou não, avalia o cigarro como uma opção.

Quem é vivo corre o risco de morrer à qualquer momento, independente de isto ser uma escolha ou não. Para Naylor a morte pode acontecer à qualquer momento, inclusive independente de nossas escolhas, porquê não aproveitar o hoje?

Logo temos um paradigma: afinal até que ponto nossa liberdade depende de nossas próprias escolhas sem influências externas, no caso, a propaganda. Somos induzidos o tempo todo pela mídia, induzidos a acreditar numa realidade montada, criada, idealizada. A escolha é realmente nossa? Ou somos influenciados a escolher por isso?

Sobre este mesmo tema, escolhas, o filme trás ainda outra questão: Se sabemos que o cigarro é letal, porque estampar as caixas com imagens que comprovam isso?

Essa é a visão de um lobista representando os interesses de uma empresa, mas quem consome o cigarro acredita realmente que ele leva à morte? Qual é a ideia transmitida? Morte? Não. Sedução, socialização e mais do que isso, a certeza de ser aceito. É aquele velho ideal de parecer rebelde, independente, de saber o que faz, de correr riscos!

Que a mídia é sustentada pela publicidade todos sabem, isso porque a publicidade é muito clara. Mas e a propaganda ideológica, todos sabem? Certamente não. É a chamada propaganda de ideias, onde as pessoas não percebem que estão sendo doutrinadas.

No filme isso fica bem claro. Perseguindo seu ideal de incentivar ao consumo para garantir o seu sucesso, o protagonista suborna o cinema em Hollywood, para que este estampe subliminarmente em seu roteiro, o consumo do cigarro. Neste aspecto o filme deixa claro como funcionam os diversos segmentos da sociedade atual, movidos por lucros e vantagens.

A força de manipulação de escolhas é reforçada o tempo todo. Mas, não é apenas o popular Nick que é um mestre nesta arte. Herther Holloway, uma reconhecida jornalista, consegue extrair do lobista todas as suas estratégias e tramas. Atuando da mesma forma que ele na persuasão, sem o convencer de nada, apenas utilizando argumentos. No caso a sedução, para fazê-lo sentir-se à vontade, sem a obrigação de ter de convencê-la de nada.

Uma das perguntas feitas pela repórter que obteve maior repercussão consiste em indagá-lo sobre o que o motiva. A resposta: controle demográfico.E foi com essa afirmação, não intencional à princípio, que a jornalista escreveu sobre ele. A matéria, regada por tudo que o lobista comentou durante a conversa, digamos que nada convencional, foi parar na mídia sendo amplamente divulgada.

Não bastante, o sultão da manipulação (como caraterizou-se em uma conversa com o filho), foi sequestrado e provou do 'próprio veneno'. Com diversos adesivos de nicotina colados pelo corpo, ficou entre a vida e morte. Mesmo assim, novamente reforçou os pontos positivos daquele que constitui o seu meio de trabalho, como vice- presidente da Acadêmica Americana de Estudos sobre o Tabaco. Afirmou que o fumo salvou sua vida.

Entre tantos protestos e reflexos de uma realidade até então desconhecida e incrédula, ele chega a perder o posto de um dos principais lobistas da indústria do cigarro. Tornando-se ao final do filme um defensor do movimento antitabagista.

Todo o roteiro ensina mais que convencer ideais divergentes sobre um mesmo assunto. Demonstra como o discurso é utilizado para influenciar pessoas, e ainda o impacto disso na sociedade. Mostra como funciona o mercado do cigarro, mas também o do álcool e das armas, discutindo assuntos complexos da sociedade moderna. Mostra o valor da vida, dos valores, da moral e da ética, diante do dinheiro. Uma crítica inteligente, que não exibe uma cena sequer com personagens fumando.

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